conversas inuteis

Quinta-feira, Novembro 20, 2008

Àqueles amores que nunca o serão

Disse ela.
Sabes o que me apetecia? Poder ouvir-te cantar.
E por causa desse desejo ele buscou todos os sons e trinados melodiosos de cânticos de pássaro que sabia existir, para juntar à sua voz.
Decorou e compôs canções, de amores de verão e de paixões de Outono.
Buscou o doce som do desejo só para poder cantar um ínfimo do que sentia por ela.
Cantou por se sentir vivo, sendo ela a razão da sua existência.
Deu-lhe a provar o sabor das lágrimas de paixão com o doce sabor da sua voz melodiosa, mas muda e queda de silêncio.

Disse ela.
Sabes o que gostava? Que alguém me escrevesse um poema.
E por causa desse desejo ele foi buscar a espuma do mar, o sal na areia branca, o azul das violetas da montanha, os sabores do campo, as cores dos céus.
Tudo para compor versos de amor e paixão, os quais ela julgaria tirados de alguma epopeia grega repleta de actos heróicos cravejados com a sofreguidão do desejo!

Disse ele.
Sabes o que queria?
Poder um dia cantar ao teu ouvido, sussurrar palavras ternas de sentimento puro e até agora, reprimido.
Abraçar esse puro corpo de marfim, acordar com esse sorriso de pó de estrelas e com os toques de encantamento das tuas mãos em meu corpo.
Tudo como o imagino que seja.

Mas tal seria impossível.
Viviam em mundos separados.
Em épocas diferentes.
Ela até poderia não existir.
O que sabia dela, eram apenas palavras que todos os dias encontrava em tiras de papel, debaixo de uma pedra no seu jardim.
Imaginava-a bela, radiosa, graças a breves vislumbres da sua silhueta quando o vento passava.
Via-a sorrindo. Aquele sorriso que o encantava.
Mas distante, muito distante.

Ela também o conhecia simplesmente... assim.
Poderia ser apenas imaginação.
Uma brincadeira de algum conhecido.
Como é que um homem que nem conhecia, de um momento para o outro passou a ser seu intimo e lhe escrevia belas cartas com canções e poemas de amor confesso?
Algo que nunca ninguém o tinha feito?

E se eu procurar, minha bela, uma maneira de te encontrar?
Uma maneira de ficarmos juntos?

Não, não o faças meu querido.
Podes ser apenas ilusão.
E eu, eu temo a desilusão.
Até, quem sabe, eu posso ser uma imagem criada pela tua imaginação e um de nós ficaria perdido no limbo!
Assim o creio.
Estes momentos de tão belos parecem impossíveis de acontecer!
Por isso creio que seja apenas imaginação de um de nós e o outro não exista.
Até já duvido da minha existência como mulher!
Como ser vivo.

E assim ficaram.
Cada um na sua época, cada um no seu tempo.

As cartas começaram a escassear debaixo da pedra mágica.
Como cada um tinha medo de não encontrar o outro, acabaram por nunca se encontrar.
Acabaram por se perder.
Num qualquer limbo!

Até que um dia alguém retirou do jardim a própria pedra!
Deixaram de se comunicar.
Deixaram de existir!
Acreditaram que cada um fosse produto da imaginação.

E ele no seu tempo, na sua época, dezenas de anos depois ainda parecia que a via, à sua imagem, à sua silhueta.
E em noites de vento revolto, vinha para o jardim, para ver o seu vulto passar.
Mas agora, agora não a via sorrir, mas sim cheia de tristeza, séria.
Com lágrimas no olhar.
Com um olhar perdido, como que perscrutando o horizonte.

E ela, no seu tempo, na sua época, dezenas de anos depois, olhava o horizonte, com a esperança de poder arranjar maneira de tornar a vê-lo... mesmo nunca o tendo visto.
E em noites revoltas vinha para o jardim ouvir o som dos ares.
Que vinha repleto daquela voz que tanto adorava... e nunca tinha ouvido!
O som dos ventos carregando canções e poemas dedicados ao amor.

Àquele amor que nunca o foi.

Terça-feira, Novembro 18, 2008

Apelo de Deus

Tinha chamado a família toda para assistir ao que ele chamava o Apelo de Deus.
Concentrou-se.
A noite transbordava com a sua negra luz todos os recantos da sala.
O silencio imperava.
Da testa de uma das tias brotava uma gota de suor a qual se apressou a secar para não interromper esse momento dito solene.
Ouviu-se o miar de um felino ao longe. Silêncio. Parou.
Concentrou-se.
Um primo pigarreou e pediu perdão, silenciando-se de imediato.
Concentrou-se.
Recordou tudo da sua já longa vida numa breve fracção de segundo. Uma lágrima escorreu pela sua face.
Limpou-a.
Abanou a cabeça e tornou a concentrar-se.
Não se lembrava de ter tido uma decisão tão importante na sua vida. Despira-se de roupas e preconceitos, apenas restando a roupa interior e o orgulho.
Sempre o maldito orgulho!
Sentiu o cheiro da roupa lavada.
Odiou-se a ele próprio, por não conseguir concentrar-se devidamente.
Correctamente.
Inspirou fundo.
Expirou.
Buscou o seu equilíbrio interior.
Sentia-se preparado.
Começou.
Primeiro levemente, depois com toda a força da sua alma.
Apenas em roupa interior e cheio de fé.
Com a sua mão esquerda começou a despir-se tendo um Callipo de limão na direita enquanto sissiava uma música tirolesa.
Cada vez mais forte.
Tão forte que os dentes tremiam.


Apenas recordava vagamente uma linda camisa.
Pena que as mangas fossem agarradas à frente.
Não dava grande mobilidade.
Agora, na sua nova casa na Rua Júlio de Matos ria loucamente.
Deus tinha razão.
Limão em gelado é muito ácido.

Quinta-feira, Novembro 06, 2008

Sakamuri era um Homem feliz...

Sakamuri era um homem feliz.
Pelo menos assim o gostava de pensar.
A sua grande paixão sempre foi a Belle Cuisine.
Não como consumidor, mas sim como criador.
Era um renomado Chefe de Cozinha. A sua cadeia de restaurantes era famosa por todo o Japão.
Mas nunca tinha conhecido outro tipo de felicidade. A felicidade e o prazer de amar alguém. Não perco tempo com futilidade, costumava dizer no seu circulo reduzido de amigos, conhecidos ou interesseiros como gostava de os classificar.
Era um homem feliz. Assim o gostava de pensar. Gostava de começar os seus dias sentado sempre na mesma rocha, descalço, a olhar o mar mudando de cor.
Mas naquele dia algo iria mudar para sempre a sua vida.
Tinha-o começado com o seu ritual de há anos. Saiu de casa, não sem antes admirar a sala que possuía repleta de prémios pelas suas criações culinárias. Dirigiu-se à praia próxima de sua casa, descalçou-se e foi andando pela areia fria até à rocha mais próxima do azul esverdeado.
E foi aí que a viu pela primeira vez. Cabelos compridos, negros do azul mais profundo que o mar possui, pele branca como coral e uma face mais bela do que qualquer das suas mais mirabolantes criações culinárias.
Chamou-o e ele foi. Entrou na água dando-lhe a mão e foram para longe levado sempre por ela, cada vez mais para baixo. Foi aí que se percebeu que aquela visão que o deixou de imediato agarrado pela paixão louca e insana, era, afinal, parte mulher, parte criatura do mar.
Assustado, tentou-se libertar, mas cada vez mais se sentia seu prisioneiro.
Preso, sem ar, quase a sucumbir, foi beijado com loucura por ela.
Deixou de ver! Sentiu o sabor de todas as iguarias do mar naquele beijo! Sentiu-se enleado numa rede de espuma que o levava não ao céu, mas, poder-se-ia dizer, ao paraíso.
E louco de paixão, seguiu-a...
Naquele momento iria com ela até ao fim do mundo.
Apercebeu-se que após aquele beijo conseguia respirar debaixo de água! Poderia ficar com ela para sempre!
Poder-se-iam amar sem que nada mais importasse naquela vida.
Mas cedo veio a saber que a saudade mata, rói por dentro. E começou, todos os dias, a recordar-se da sua anterior vida, como era calma e bela.
Decidiram. Iriam viver na terra. Nunca se separariam.
Ela não conseguia idealizar a vida sem ele. A paixão, o amor, era louco entre ambos.
Regressaram numa noite. Discretamente, colocou-a ao seu colo e levou-a para casa.
Acomodou-a e deu-lhe um espaço para ela. Só para ela.
Sakamuri era um homem feliz.
Hoje, mais que ontem, tinha a certeza que era um homem feliz.
Descobriu os prazeres do amor, da paixão, viveu tempos loucos de prazer que nenhum homem se poderia orgulhar de ter vivido e, depois de tudo isso, voltou à sua vida. À vida que ele tanto amava.
E após isso... ficou famoso. Conhecido mundialmente. Pelos seus pratos de sushi, cujo segredo apenas ele conhecia.
Ainda tinha na sua casa, a barbatana da cauda, para se recordar dela.
Ficaria para sempre grato à sua paixão de cabelo azul profundo.
Nunca tinha provado um sushi tão bom como aquele!
Sakamuri era um Homem feliz...

Há quem diga que o amor é um fim...

Há quem diga que o amor é um fim...
Eu não quero o fim. Apenas o princípio...
dA paixão, dA loucura, dA alegria desvairada, desacertada
De quem está apaixonado
O princípio de Viver
dA Paixão de viver
Quero olhar o oceano apaixonadamente
Afogar-me nos braços dos que me dão gosto
Dizer as coisas que quero
As asneiras que me apetece
Correr para o mar em noites de chuva
Sentir a areia nos pés, no corpo, na alma
A noite a cair sobre mim para que me veja a chorar
De tristeza, alegria, esquecendo tudo o que me rodeie
Quero ser livre
De corpo, alma e espírito
Quero tudo isto
Sem deixar de amar
Paixão

Sexta-feira, Outubro 31, 2008

Conheci-te quando?

Conheci-te quando?
Como te conheço hoje.
41 anos.
Beijo-te e desejo-te um até amanhã.
Adormecemos de mãos dadas.
Mesmo sentindo que há dúvidas entre nós.
Que talvez nunca se apaguem.
Vejo no teu olhar.
Desde que algo correu mal connosco.
Conheço-te bem.
Conheci-te quando?
Como mãe.
Aos 37 anos.
Decidimos ter um filho.
Decisão difícil, mas pensada. Bastante pensada.
Nasceu.
Felicidade.
Mas...
Custou muito os primeiros tempos.
Afectou-me muito as mudanças.
Afectou-te muito as diferenças.
Estivemos para partir.
Cada um para o seu lado.
Mas ficando para sempre com aquele elo que nos ligava.
Conheci-te quando?
Como Mulher.
Aos 29 anos
Quando decidi que estava maduro suficiente para me declarar.
Para me casar.
Recebi-te com amor no altar.
Choravas.
Eu, sentia-me feliz, mas atrapalhado, envergonhado até.
Conheci-te quando?
Como namorada.
Aos 18 anos na festa de anos de um amigo comum?
Bebemos um pouco e para quem não estava habituado, acabámos por nos beijar.
Foi o princípio de um longo namoro.
Com muito amor, mas muitos altos e baixos.
Como é tudo na vida.
Como deve ser tudo na vida.
Conheci-te quando?
Como amiga.
Tinha 17 anos.
Numa noite de verão foste-me apresentada por um amigo comum.
A conversa centrou-se num álbum de música que tinha sido editado.
Sorrimos, brincámos, falámos e partiste com ele. Com o amigo comum.
Conheci-te quando?
Como colega.
Tinha 14 anos.
Num dia chuvoso na escola foste-me apresentada por um amigo comum.
Eras a rapariga das mini saias e boas pernas.
Vinhas com uma amiga.
Falámos, sorrimos, brincámos e partiste com ela.
Uma amiga que mais tarde viria a conhecer.
Conheci-te quando?
Como menina. Ser vivo.
Tinha 12 anos.
Tinha acabado de entrar no Liceu.
Passei por ti várias vezes.
Intrigava-me, aquela garota, de longos cabelos lisos e louros, reflectidos num sorriso de menina traquina.
Andavas sempre com rapazes mais velhos que tu. Amigos, entenda-se.
Parecias a sua mascote.
Passaste um dia por mim e sorriste.
Mas não me viste.
Apenas sorriste porque olhava para ti.
E jurei para mim que um dia serias minha mulher!
Recordo-me como se fosse hoje.
Porquê naquela altura, naquele momento?
Não sei.
Mas esse estranho desejo de criança realizou-se.
Era o nosso filho, já a pedi-lo.
No meu coração.
Na minha mente.

Terça-feira, Outubro 28, 2008

Tic tac, tic tac

Tic tac, tic tac
Maldito cronómetro da vida
Que com precisão
Em sua louca corrida
rouba-nos entre dedos
O Tempo
tic tac, tic tac
Marca fundo na pele
enruga, suga, chupa,
gera sulcos cravados na alma
Seca a memória
Tic tac, tic tac
Rouba doces anos
Forma desenhos em fios de seda
pleno de amores e desenganos
frágil teia de recordações
emaranhados dias
as horas que nos tira
a vida que retira
O Tempo...
tic tac, tic tac
Estranho que nos enleva
que tira a vida vivida
...que nos deixa a sós
Com espinhos cravados
olhos lacrimejantes
gotejantes
flores de sangue
com sabor a sal...
Tempo
tudo dá
nada deixa
Sós, enfim... sós...
vazios de nós
como se nada houvesse
se nada tivesse havido
como se o que foi vivido
não tivesse acontecido
A não ser na memória
do cronómetro do tempo
tic tac, tic tac tic tac tic tac
São longas as horas, que já vai tarde...

Quarta-feira, Outubro 08, 2008

13 Anos - II

Saiu de lá com um estúpido sorriso estampado no rosto.
Tinha acabado de entrar num outro mundo. No mundo dos crescidos. Já era um homem. Quando foi gozado e enxovalhado pelos colegas e amigos por ter fugido de casa da Sandra, encheu-se de coragem e voltou dias depois.
Tudo porque a Sandra, mal chegou à escola, deu com a língua nos dentes, e enxovalhou-o à frente de todos.
Que ele era um menino, um mariquinhas, que fugiu dela, um bebé, e coisas bem piores. Ele teve de ripostar e a saída que teve foi dar como desculpa a mãe dela ter estado presente. Daí ter agido como agiu.
Lançaram-lhe de imediato um desafio. Então volta lá e prova que és homem.
Ela lançou um olhar desafiador, ele engoliu em seco e disse que sim, claro, é obvio, quando ela quisesse. Então amanhã depois das aulas. Sim claro, é como se lá estivesse e desta vez não haveria musiquinhas do Roberto Carlos.
Chegou a hora.
Entrou nas escadas do prédio, olhou para a porta de madeira e tocou na campainha.
A mãe, outra vez a mãe, abriu a porta e sorriu-lhe.
Sandra, o teu amiguinho chegou. Obrigado mãe, deixa estar que eu recebo-o. Olá, entra. Anda comigo. Mãe, vamos para o quarto e não nos incomodes. Vamos estudar. Sim, filha, estudem muito.
E fechou a porta.
Não fechou simplesmente a porta.
Fechou-a à chave.
À chave!!!!!
Agora eram só os dois.
Baixou as persianas, para dar ambiente e puxou-o para o leito. Agarrou-o semicerrando os olhos, começando-o a beijar...
Quando chegou a casa, mesmo com o que se tinha passado, ainda sentia em si o efeito libidinoso e afrodisíaco do momento pelo qual tinha passado. Ainda sentia a virilidade no máximo.
Deixara de ser virgem. Passara a ser um menino homem.
E novos mundos se abriram de par em par.
E nunca mais voltou a ser o mesmo.
O menino cândido e inocente que passava o tempo a jogar à bola e a perseguir pássaros e lagartixas desaparecera por completo.
Naquele dia morreu no sono dos justos para renascer no dia seguinte, qual fénix saída das cinzas, mais forte, confiante e seguro.

Sexta-feira, Outubro 03, 2008

Aos 13 anos!

O que é que um jovem de 13 anos faz numa situação destas?
Apenas vim fazer um trabalho de grupo da escola!
Porque é que os outros não apareceram?
Aqui estou, sentado no sofá, com a Sandra, a predadora da escola!
Temos a mesma idade, mas nesta “matéria” ganha-me aos pontos.
É famosa e conhecida por já ter namorado com imensos rapazes, além de que conheço o namorado dela actual!
O que me incomoda, não é estar só com ela, mas sim as suas insinuações!
As suas aproximações!
Os seus sorrisos!
Os seus olhares sedutores!
Arrebatadores!
Assustadores!
Não estou preparado!
Não esperava!
Não sei o que fazer!
Desespero!
SOCORRRRRO!!!!!
O que se faz numa situação destas?
Avanço? Recuo?
E com a mãe dela junto a nós!!!!!
Mããããeeee!!!
Ajudem-me!!!!
Agarro nos discos.
Vejo alguns do Roberto Carlos. Só música bregue, pimba.
Ah, como gosto, hoje, de Roberto Carlos. Minha tábua de salvação.
Peço para colocar um disco ao que ela se prontifica.
Estás muito romântico. Diz libidinosa.
Engulo em seco.
Agarro nas letras e tento cantá-las, já que para ela, o interesse é zero, em relação aos livros da escola.
Não sabia que este trabalho de grupo de Geografia tinha a ver com maciços montanhosos, que é o que estou a começar a sentir.
Se é que me faço entender.
Espero que não note.
Agarra-me.
Sinto-me a suar.
Orelhas vermelhas.
Face a ferver.
Agarra-me ainda mais.
Fujo.
Literalmente.
Tenho de ir.
Levanto-me.
Adeus.
Obrigado, minha senhora.
Até amanhã, Sandra.
Saio porta fora.
Como é que uma mãe deixa uma filha agarrar um rapaz daquela maneira????
Nas barbas dela????
Nem acredito no que me estava a acontecer.

Será que fiz bem?
Amanhã na escola.
Como vai ser?

Terça-feira, Setembro 23, 2008

À espera

Estava com nove anos, três meses, quatro dias, cinco horas e vinte e quatro minutos de vida.
Deitado na cama recordava o fim dos tempos.
Tempos que eram seus.
O início de uma vida em que, num mundo que era parte de si, se sentia protegido.
E depois... um vazio. Sentia que faltava uma parte. A parte de um todo.
Esperava tornar a vê-la.
Um dia bateriam à porta, iria abri-la e nesse momento uma mulher lhe sorriria e diria que era sua mãe.
Tinha sido um logro, um engodo, algo de estranho e bizarro o terem escondido que sua mãe, afinal, estava viva.
Mas esse dia não chegava.
Com a face encostada no vidro da janela do rés do chão onde seus avós viviam, observava as pessoas que passavam.
Observava, principalmente, uma senhora, que por ali costumava passar.
Sabia as horas que ela passava, ou para casa, ou para o trabalho, ou quem sabe talvez passasse apenas por passar como quem vai por uma ruela sem saber o seu destino.
A primeira vez que a viu, através do vidro embaciado pelo respirar, ela disse-lhe adeus e sorriu.
Ele, apenas corou, ficando a observá-la a afastar-se, com seus grandes olhos muito abertos.
Certa vez, estando ele com a janela aberta, parou, sorriu e falou perguntando-lhe como se chamava, que idade tinha e disse-lhe que era um menino muito bonito.
Ele apenas sorriu e olhou embevecido para ela.
A partir daí todos os dias, pela mesma hora, lá estava ele com o seu narizito encostado à janela esperando que ela passasse.
Era uma mulher jovem, bela e interessante.
Quem observasse a situação deduziria que aquela criança que corria para a ver todos os dias, à mesma hora, no mesmo local, estava apaixonado por ela, como são as paixões de criança, arrebatadoras, inocentes e dedicadas.
Mas não, não era uma simples paixão.
Apenas, se é que se pode utilizar a palavra, apenas, nesta ocasião, pensava que era sua mãe que passava por ali sempre à mesma hora, naquele local que era a frente da sua janela, porque sabia que ele iria estar lá e assim o poderia ver.
Em segredo...

Terça-feira, Abril 22, 2008

Doces, bombas e balas

Aguardávamos ansiosos o toque de saída das aulas para poder correr em direcção à vedação de arame, não farpado, que dividia o mundo da aprendizagem com o resto dele.
Após aquele toque galgávamos, que nem pequenos e graciosos animais em liberdade, na direcção daquela curva que o muro com arame fazia, ansiosos da sua presença.
Ao ver-nos embalava nas mãos o seu pequeno sino, de sorriso pintado de branco e cara de lua cheia.
Nossos olhos brilhavam naqueles doces, gomas, rebuçados e chocolates de cores e feitios que nos observavam com olhos de quem quer ser devorado.
Toda a moeda era gasta naqueles pedaços de pecado em forma de guloseima que aquele senhor bondoso nos trazia.
Quase vinte anos mais tarde, conheci a sua filha.
A recordarmos a infância vim a saber que aquele senhor de bata branca, rodeado de doces e de cara bondosa era seu pai.
Vim a saber que todas as noites ele gritava, suava e se lançava ao chão pensando que estava no meio do mato, combatendo numa guerra em África, que tanto fez mal num lado e noutro e de nada serviu, a não ser para deixar marcas em povos que deveriam ser irmãos.
Todas as noites, bombas, morteiros, balas eram lançadas em seus sonhos.
Todas as noites, até ao fim dos seus dias, nunca conseguiu dormir uma noite descansado.
De dia distribuía felicidade em forma de doces à criançada.
De noite o seu passado distribuía-lhe pesadelos que nunca o abandonaram mais.
Morreu num desses ataques.
Dormindo, rodeado de homens que noutras terras também vivem guerras nos seus sonhos.
Há tantas pessoas especiais. Ele era uma delas.
Marcado pelas malhas que um império teceu e na qual se enredou.

Quarta-feira, Abril 16, 2008

O Novo Amigo Alado

Vida estranha esta.
Estes seres grandes, estranhos e diferentes, sorriem, esticam as suas asas limpas de penas para nos tocarem e alguns até gostam.
Para onde será que os meus irmãos vão quando estes Deuses grandes e frágeis os levam?
Quando chegará a minha vez?
Hummm, está um Deus de tamanho mais reduzido a olhar e sorrir para mim.
Será desta? Será desta?
Parece que não. Os mais idosos que o acompanham estão mais inclinados para o meu irmão.

Uiiiii. Até me doeu a mim. O meu mano mordeu a mão a um deles.
Parece que mudaram de ideias.
O Deus menino aponta para mim e... sim! Parece que sou eu o escolhido.
Oh... acaricia-me. Diz-me palavras doces.
Vou com ele.
Adeus, ninho protegido e quente.
Olá, mundo novo, pejado de aventuras.

- É esse que queres?
- Sim, avô. É muito bonito.
- Já viste? O desgraçado do pássaro tão novinho e deu-me uma trincadela enorme.
- Este é bonzinho, avó. Vou-lhe chamar “Peninhas Jacó”.
- Peninhas Jacó? Mas Jacó é o Papagaio!
- É Peninhas Jacó, sim!

- Avó.
- Sim?
- O Peninhas Jacó também morre? Amanhã?
- Não, netinho! Ainda é bebé. O Peninhas era velhinho. Por isso partiu.

Segunda-feira, Abril 14, 2008

Peninhas Júnior

Ontem despedimo-nos do Peninhas Júnior.
Periquito verde, afamado conhecedor das mãos que lhe faziam festas e não queriam mal.
Tinha cerca de onze, doze anos nas penas.
Peninhas Júnior porque antes dele houve o Peninhas que, supostamente, disse adeus a este mundo na boca do gato preto e branco Toulouse.
Vaquinha para os amigos. O gato, claro.
Supostamente, porque só encontraram a gaiola aberta, algumas penas e um ar de satisfação no felino.
Mas Peninhas Júnior acordou mal.
Com algo que lentamente lhe prendia os movimentos da pata direita, vendo o fim a chegar chorava verdadeiramente.
Porque os pássaros também choram.
Numa cama improvisada de papel absorvente para as mãos, aí passou os seus últimos momentos.
Foi acarinhado mas... não foi salvo.
Quem não gosta de ser salvo?
Recolheu à terra numa tarde ensolarada de Domingo.
De corpo perfeito como que vivo.
Ficou a repousar por debaixo do limoeiro.
Não sem antes o filhote ter largado verdadeiras lágrimas sentidas, bradando aos céus as saudades que iria ter, já tinha, do periquito amigo, o qual acariciava com o apoio do avô.
Ajudou a aconchegar o corpo inerte nas folhas de papel que o rodearam para a eternidade e após colocar terra sobre o defunto, despediu-se com lágrimas.
Quando se aproximava do limoeiro, libertava rios de saudade e afagava com amor e carinho a terra que cobria o amigo alado.
Não perguntou como o amigo de asas foi para o céu se o pai estava a colocar o seu corpo debaixo de terra.
Mas acreditou, e acredita, que está no céu com os outros passarinhos.
Enquanto o sol adormecia ainda ouvimos o seu cantar ao longe numa nuvem de pássaros verde e azul.

Sexta-feira, Abril 11, 2008

Está no céu. Com os anjinhos...

Eu beijo e abraço imenso o meu filho.
Não deixo perder uma oportunidade para o fazer.
E porquê? Porque no subconsciente sei que tive pouco carinho dos meus pais.
Da parte da minha mãe porque faleceu quando tinha três anos.
Da parte do meu pai, porque nunca foi pessoa para demonstrar grandes afectos de pai/filho.
E no subconsciente tento ser melhor pai do que o meu alguma vez foi.
Se é que ele soube ser pai alguma vez.
Não me posso queixar de não ter tido carinhos porque os meus avós sempre foram como uns pais para mim.
Mas pai e mãe é isso mesmo. Pai e Mãe. Não é?
Eu explico ao meu filho que o papá já não tem mamã, que perdi a mamã quando tinha a idade dele, que nunca mais a vi porque foi para o céu e está com os anjinhos.
Para ele perceber a importância que os papás tem na vida de uma criança.
Na vida dele.
Nas nossa vidas.
E ele com os seus três anos entende.
Há dias saiu-se com uma engraçada.
Saímos de casa e ele queria que eu fosse ver um gafanhoto morto (quando vê algum bichinho, mesmo insecto, morto começa com os "coitadinho, coitadinho".
Como não encontrou a "carcaça" virou-se para mim e disse.
- Oh, papá. Já não está cá.
Olhou para o céu e fazendo cara de bebé disse:
- Está no céu. Com os anjinhos. O Gafanhoto.

Terça-feira, Abril 08, 2008

Tinha o olhar na Alma

Tinha o olhar na Alma que pairava acima de tudo e todos.
Os sonhos eram inventados com mil cores.
Habitava numa casinha de um canto da mente onde cabia o mundo.
Trombetas tocavam enchendo o ar de sons e cores competindo com nuvens e raios de sol que por ali passavam.
Os sorrisos tinham o doce sabor da loucura de viver.
Os cabelos esvoaçavam com o vento, carregados do orvalho da manhã.
Tempo que tentava manter.
Nem que fosse no interior de uma lágrima feita de sal em diamante.
Tempo de uma vida.
De toda a sua vida.
Deu dois passos e morreu para a vida.
Para essa vida vivida até hoje mas... renascendo para outra.
Em cada passo dado tinha uma vida vivida.
Recordando todas essas vivências foi vivendo com a Primavera no coração e uma sombra no sorriso.

Segunda-feira, Março 31, 2008

Entrei

Entrei.
Tudo escuro.
Tudo por causa dos malditos insectos.
Essas malditas melgas.

Afastei o lençol.
Os meus olhos habituaram-se ao negro da noite.
Beijei-te o ombro.
Cheirei-te o cabelo.
Sorri.
Beijei-te os lábios, a face, o pescoço.
Apercebi-me que enquanto dormias, sorrias.
Acariciei-te a pele, dei-te carinhos.
Apeteceu-me.
Simplesmente.
Estes pequenos gestos de tão grande importância que com o tempo pura e simplesmente nos esquecemos.
Correspondeste, enquanto dormias, aos meus beijos.
Abracei-te e encostei-me ao teu corpo.
Assim ficámos até adormecer e os sonhos me envolverem por completo.
Até amanhã, coração.
“...E eu não tenho outro remédio que senão amar-te...”, como diz a música.

Segunda-feira, Março 10, 2008

Memórias, quem as não tem?

Dava gosto agarrar em todos os pedaços da vida e criar algo puro de recordações e memórias.
Passá-los para imagem, fotografia, algo que pudesse ver e observar quando me apetecesse.
Seria apenas eu... e todos os que passaram pela minha vida.
Não é muito!
Que tivessem passado pelo meu diapositivo a preto e branco, pela minha película a cores da memória.
Longe vão os tempos de jovem teenager, de cabelo comprido com brilhos de sol, da pele bronzeada da praia, dos namoros, das amizades, da alegria da juventude, das mentiras inocentes, dos amores indecentes, dos beijos incandescentes, dos corpos flamejantes de raios de calor de uma juventude que seria para sempre eterna.
Gostava de roubar um pedaço do meu tempo para colocar lá, sempre, o que vai na minha alma.
Para mais tarde recordar.

Sexta-feira, Fevereiro 29, 2008

Sós entre muitos

Por vezes estamos acompanhados e sentimo-nos sós.
Sentimo-nos um único número entre números.
Sós. Sem ninguém.
Melancólicos e tristes.
Podemos estar rodeados de amigos, de quem amamos, de quem gostamos, de quem admiramos, mas o número um, domina-nos. O nosso Eu, o nosso interior quando se sente só, nada nem ninguém nos faz sentir acompanhados.
É assim que me sinto, por vezes.
Só.
Um número isolado na minha mente.
No meu interior, sem escada de salvação para o exterior que me rodeia.
É assim que me sinto hoje.
Sinto-me um estranho entre estranhos.

Quinta-feira, Fevereiro 28, 2008

O Tempo da Terra do Nunca e dos Meninos Perdidos

Era um tempo em que sonhar era bom, em que sabia bem brincar na rua pela noite fora naquelas noites quentes, estreladas, com sabor e cheiro de infância.
Com aqueles amigos que se julgava vir a ter até ao fim da vida.
Era um tempo bom e que é bom recordar.
Era um tempo em que adorávamos ler a boa e velha BD que chegava do Brasil, dos Tio Patinhas, Zé Carioca, Mickey, Donald, os Disney Especial e as aventuras na boa e velha Patópolis cheia de lutas com o Mancha Negra, o terrivel Bafo de Onça ou os assustadores e trapalhões Irmãos Metralha. Os velhos truques do Zé Carioca, eterno apaixonado pela Rosinha e sua amizade com o bom Nestor. Ou pertencermos ao Clube dos meninos em que menina não entra, das histórias da Luluzinha e Bolinha.
Era um tempo em que era uma delícia chegar à época de Natal e sabermos que iria dar Peter Pan ou Branca de Neve na televisão, com aquele português açucarado do Brasil que os bonecos falavam e nos deixavam maravilhados e sonhadores.
O Tempo da Terra do Nunca e dos Meninos Perdidos.
O tempo dos Meninos da minha infância.

Terça-feira, Fevereiro 26, 2008

Joaninha e seu pai (Conto)

Joaninha vivia num mundo de ilusões que apenas a ela pertencia.
Seus cabelos negros, cor de azeviche, tapavam a face sorridente que tinha todas as manhãs quando acordava com desejo de brincar.
Era feliz por seus pais serem tão seus amigos.
No dia anterior tinha ganho a boneca dos seus sonhos.
Pele branca cor de cera, olhos castanhos penetrantes, grandes pestanas e cabelos negros cor de azeviche.
Como ela.
Parecia uma outra Joaninha, tão idênticas eram.
Seu pai a tinha encontrado numa loja de antiquário.
Lembrou-lhe logo sua querida filha.
Pagou caro, mas não se importou.
Ele sabia que faria a menina feliz.
Olhou para a vitrine e viu-a.
Estava dentro de uma caixa de madeira com um vidro servindo de protecção.
O Antiquário disse que a boneca era muito antiga, mas sempre tinha sido estimada pelos seus antigos donos.
Quem quer que eles fossem.
Mas o que o mais intrigava é que a boneca era bastante idêntica à sua querida filha.
Tão parecida que até tinha um pequeno sinal na bochecha esquerda como Joaninha.
Acordou feliz e olhou para os pés da sua cama.
Lá estava ela.
Sentada como de uma menina se tratasse, olhando directamente para ela.
Tão directamente que a felicidade de Joaninha se desvaneceu num arrepio estranho de medo e temor.
A boneca parecia tão real.
Abanou a cabeça e sorriu.
Estava a imaginar besteiras.
Levantou-se, agarrou a boneca e beijou-a carinhosamente.

Em pouco tempo deixou de brincar com seu amigos e passou a estar todo o tempo com a boneca.
Ia para a escola e levava-a consigo.
Dormia com ela.
Tomava banho com ela.
Sua mãe começou a achar aquilo muito estranho.
Tentou falar com ela mas a menina só queria a boneca.
Os pais preocupados levaram-na ao médico.
Primeiro a um psiquiatra, mas após as primeiras consultas o médico achou que a criança era absolutamente sã.
Apenas sofria de solidão.
Mas essa solidão foi ela que a criou.
Desde que o pai trouxe aquela estranha e misteriosa boneca.
O que teria aquela boneca de tão hipnótico para que a filha dos seus olhos se tivesse transformado numa criança fechada em si, obscura, e enigmática?
Preocupado ligou para o antiquário e pediu que fizesse uma busca para saber a quem tinha pertencido a boneca.
Os dias passaram.
Joaninha mantinha o seu estranho comportamento.
Como os pais gostariam de estar dentro da sua mente para saber o que por lá se passava.
A casa onde antes era tudo alegria e felicidade tornou-se em pouco tempo um local triste e silencioso sem a voz e o riso de Joaninha.
Os pais tentavam de tudo.
Levaram-na a ver belos lugares, fizeram grandes passeios pela praia e pelo campo, foram ver peças de teatro para crianças, até a mudaram de escola para ver se com novos amigos voltaria a ser o que era.
Entretanto, não deixaram de contactar diversos especialistas médicos em várias áreas para tentarem saber o que Joaninha tinha.
Preocupado e com o pensamento em turbilhão à velocidade de um cometa negro, resolveu fazer o que já deveria ter sido feito há muito tempo.
Retiraria a Joaninha o seu alter-ego, a sua mais que tudo, a sua confidente, sua amiga mais preciosa... e única.
Retirar-lhe-ia a boneca de olhos negros, cabelos cor de azeviche e pele de cera que tanto o fascinou, também a ele, desde que a viu naquela lúgubre loja de antiguidades.
Doce pesadelo que trouxe directamente para casa.
Abriu-lhe a porta e ela entrou devastando-lhe o seu doce lar, ficando com um sabor amargo a desespero enquanto via sua filha a ser engolida literalmente para um poço sem retorno.
Carrasco de suas próprias ilusões via desvanecer-se à sua frente todos os sonhos que teve em relação a Joaninha.
A mãe de Joaninha não o criticava nem censurava por ter trazido a boneca para casa, mas tornou-se silenciosa e distante como querendo dizer sem palavras que a culpa tinha um nome.
Na própria casa parecia que viviam em mundos paralelos, silenciosos e tolerantes.
Quando chegavam a casa fazia o jantar e ele ajudava-a no que necessitava, mas sem uma palavra, sem um carinho, sempre distante, ausente, como se ele já não existisse.
Chegou o inverno
Nada mudara.
A chuva batia lá fora, cristalizando de encontro aos vidros das janelas.
Chegara a hora.
Subiu as escadas e encarou de frente a porta do quarto de sua filha.
Bateu.
Ninguém respondeu.
Silencio total.
Abriu a porta e viu Joaninha com os olhos vítreos cravados em si.
Aquele olhar fez com que se sentisse cansado e velho.
A coragem por um momento desvaneceu e sentiu-se ir abaixo.
Por momentos sentiu-se febril e assaltado por tremores nervosos.
Arrepiou-se como se um vento frio e cortante tivesse entrado no seu corpo.
Recordou naqueles breves instantes as mortes de seus pais.
Mortes trágicas numa noite de inverno como aquela.
Vinham a conduzir quando um pequeno animal se atravessou à frente da viatura.
O pai para não atropelar a pobre criatura desviou-se da sua faixa indo de encontro a um camião que vinha na direcção contrária em alta velocidade.
Pelo menos foi assim que um transeunte testemunhou o que viu.
O pobre do camionista não pôde fazer nada.
Sua sorte foi que nesse dia estava com seus avós.
Os pais tinham ido ver uma peça de teatro.
De repente acordou para a dura realidade que tinha na sua frente.
Voltando-lhe a coragem, decidido, avançou na direcção de Joaninha e sua boneca.
Parece que foi ontem.
Quando encontrou naquela vitrine a boneca de pele de cera, nunca pensou que isso seria o início de uma grande alteração nas suas vidas.
Em pouco tempo viu a vida a desmoronar pelos alicerces.
O amor que transbordava no copo acabou por entornar completamente.
Perdeu-a.
Perdeu as duas.
É triste e ingrato estas coisas.
Estátua cinzenta e sem vida, corpo a definhar, estrela reluzente, cadente, decadente.
Sua filha.
Sua única filha.
Fruto de um amor louco e insano.
Assim o pensou.
O amor leva-o o vento com as folhas de Outono.
O que gostaria que ela fosse, o que gostaria que ela tivesse, o que ela quisesse, nada disso iria acontecer.
Separou-as.
Não podia aceitar mais aquilo.
Arrancou a boneca de suas mãos e desmembrou-a com a maior violência que poderia demonstrar.
Um urro ecoou alto, vibrante, aterrorizante, assustador, potente, de sua garganta.
Sem forças, quase desfalecendo, pela força de suas entranhas, olheou para a filha que o mirava com olhos de louca, insana, doentia, estranha.
Recuou.
Isto sem largar aquele objecto demoníaco.
Saiu pela porta fora indo esconder o fruto do desejo longe da vista e da alma da criança perdida.
Perdeu-a.
Um dia que desejaria que não tivesse acontecido.
Nessa mesma hora, nesse preciso minuto, o telefone tocou.
Estridente, gritante, assustador, penetrante.
Chamada directa do mais negro do ser.
Inferno psicológico.
Chamas eternas de desgosto e solidão.
Do outro lado uma voz ressoou firme e decidida.
- Sr. Mendonça? Tenho os resultados do Check-up da sua filha.
Se pudesse passar por cá logo pela manhã. Deveríamos falar pessoalmente. Ao telefone não é conveniente.
Concordou.
A sua linda tinha um mal que a consumia por dentro.
Estava a consumi-la, a devorá-la, a definhá-la.
Sabia-lo. Desde que ela se refugiou dentro de si.
A medicina não sabia bem o que era e aconselhou-os a visitar algo menos, digamos, recorrente.
E com isto ela estava a ir para longe deles.
Para junto de Deus.
E seus pais?
Eles que eram seus pais, que a colocaram no mundo, que a amaram ainda ela não tinha nascido, que a trataram sempre com carinho, com amor, com ardor, paixão, loucura, emoção, a luz dos seus olhos, o toque de criança entranhado no ser, eles, os pais, não teriam direito de escolha? Teriam de ficar sem ela, porque Deus a escolheu?
Mas seria mesmo Deus que a chamava?
Ou algo também muito forte, poderoso, assustador?
Há mistérios que a alma humana ainda não sabe, não reconhece, não aceita.
E receia.
Como tudo o que cheira a desconhecido.
Amargo, muito amargo. O fim de uma vida. De uma vivência.
Deambulando pela rua sem destino definido ouviu uma voz o chamando...
- Mendonça, Mendonça, acorde, menino Mendonça.
Como é que ele vai, Enfermeira Antunes?
- Senhor Doutor, continua a delirar.
- Pobre jovem. Desde que sofreu o acidente a semana passada ainda não recuperou os sentidos e continua a ter pesadelos.
- É verdade. Acidente horrível. Pobre criança que ficou sem os pais.
- Pois é. É um milagre, se os houvesse, ele ter sobrevivido.
- Dá pena, Doutor. Tão Jovem. Quinze aninhos mal feitos.
- Quem será essa Joaninha que ele tanto chama enquanto delira?
- Se não recuperar, nunca o saberemos Doutor.
Nunca o saberemos.

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Segunda-feira, Fevereiro 18, 2008

Até as fadas tem dias maus

“...Até as fadas tem dias maus.
Já estive neste mundo vezes sem conta.
Asas quebradas, cansadas de voar por aí sem destino nenhum, enlouquecendo a cabeça a quem me vê (e a quem não me vê, também).
Cansada de pousar, brincar com flores e plantas em geral.
Houve um tempo em que era confundida com pirilampos.
A minha espécie está saturada de mortes cada vez que um humano, adulto ou não, resolve dizer que não acredita em nós.
Temos contas correntes a ajustar com a raça humana...
Sendo assim... serei a imagem do que mais temem, quando dormem, quando sonham acordados, nos seus recantos mais secretos das suas almas sujas e visceralmente sangrentas.
Acabou-se a fada boa.
Maldade pura, negra, com espinhos e sangue...”

- Meu menino, essa história não é muito própria para crianças, pois não?!

- Não te preocupes, mãe. Repara, tem de ser própria para crianças. Sou eu que a estou a escrever.
Como sou uma criança, é própria para crianças.
E os manos vão adorar.

- Vê lá o que fazes! O teu irmão tem mais quatro anos que tu, mas se lhe lês uma coisa dessas, não sai do meu quarto durante a noite.

- Não te preocupes, mãe. Nunca faria uma coisa dessas.
(eh, eh, eh)

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Quarta-feira, Fevereiro 13, 2008

Numa qualquer Sala de Espera

Calma e triste, estava a senhora.
Olhos verdes mas baços, da idade.
Sentada na sala de espera fixava a saída com a esperança de o ver entrar.
Uma última vez. Na sua vida.
Sem vontade de chorar fosse de tristeza ou de alegria.
Apenas estava. Apenas se mantinha.
Agarrada àqueles pensamentos de tudo o que se passara.
Pensamentos repletos de palavras sem som que a língua já não emitia, que a boca já não bebia.
Trevas ocultas na luz que a rodeava. Os seus pensamentos do outrora.
Esperando naquela sala de espera por tempos que já não voltavam, ali estava, olhando a porta de saída da sala de espera como se esperasse que ele voltasse e entrasse por ela, para se sentar a seu lado, para a noite resplandecer como o dia no alvorecer.
Sentada sem nada ver, ali se mantinha, ali esperava, estagnava, até que a porta se abrisse... uma última vez.

Terça-feira, Janeiro 22, 2008

Recordações, o que são?

Gostava de ter recordações sólidas da minha mãe.

É apenas um pedido desta costela dela.

Quem era ela?
Terá chorado quando nasci?
De alegria?
Teve o amor que merecia?
E eu?
Aqueceu-me contra os seus seios?
Alimentou-me sem anseios?
Teria o cabelo agarrado nessa altura?
Quem era ela quando nasci?
Quem era quando morreu?
Acreditaria em Deus?
O que terá achado de mim quando me viu pela primeira vez?
O que terá sentido?
Ter-me-á beijado inumeras vezes?
Terei sido o maior dos seus sonhos?
Fui a palavra AMOR na sua boca?
Estaria a pensar em mim quando se foi?
Terá sentido um vazio quando sai?
... Ou enchi-lhe a vida,talvez vazia até aí?
Terá cantado para me adormecer?
...Terá chorado por ir morrer?
Teve alguém a dar-lhe a mão nessa altura?
Terá tido saudades do que não teve?
...Saudades deste pedaço dela?

Quarta-feira, Novembro 21, 2007

Músicas da nossa vida

Sempre tive a paranóia da música.
Mas só para as coisas boas.
Felizmente.
Senão andava a chorar pelos cantos.

Tenho "n" músicas que mal as ouço recordo momentos, sinto aromas, cheiros ou sensações... de outros tempos.
De fases boas e/ou menos boas da minha vida.
Faz-me recordar pessoas, rostos, antigas amizades, daquelas que nunca se quebrariam, de velhos amores, de velhos dissabores...

Faz-me lembrar a alegria da juventude, cabelos ao vento, passeios à chuva, correr abraçado a quem se gosta, olhares apaixonados, pequenos toques no braço de alguém, um sorriso correspondido, a saudade do reencontro, a saudade daquela ausência.

Enfim.
A música faz-me lembrar o Amor.
Amor pela vida.
Principalmente, pela vida vivida e que nunca mais se vai viver.

Enfim.
De tudo o que já fui, senti, vivi, chorei, gritei, amei, de tudo isso a música me faz lembrar.

Mas sei que mesmo não vivendo hoje em dia o que já vivi, sei que daqui a uns anos as músicas de hoje vão estar associadas aos tempos de hoje.

E sei que também os recordarei com saudade.
Saudades dos amigos, destes momentos, de tudo o que vivemos, seja em casa, com a minha mulher, com o meu filho, com os meus colegas, amigos.

Enfim.

Quinta-feira, Setembro 13, 2007

Aroma de Flanela

Bebia o sabor e aroma da flanela quente e cheia de odores de infância naquelas noites escuras e silenciosas, nas visitas de fim de semana à sua avó velha, bisavó que de nome apenas era, simplesmente, velha.
Não de velha, velha.
Velha de doçura e amor.
Velha de protecção e de rugas que contavam muitas histórias.
Histórias e estórias de uma vida.
De muitas vidas reunidas numa só.
Histórias que já tinham rugas.
Rugas daquelas de quem já tinha vivido muito e muito mais tinha para contar.
Com os seus pequenos e grandes olhos perscrutava o horizonte daquele quarto cheio de penumbra.
Doces silêncios enchiam o ar enquanto observava as sombras de tudo o que o rodeava.
Sentia-se bem.
Quente e protegido.
Com uma paz na sua alma que o levava ao encanto e descanso nos braços de Morfeu.
Asssim eram as noites na casa de sua bisavó.
Plenas de doçura e encanto revolto em velhos lençóis de flanela.

Quarta-feira, Setembro 05, 2007

Gastão

O meu lindo gato gordo e cinzento Gastão partiu.

Partiu ontem à tarde, enquanto dormia.
Contaram-me entre batas e marquesas.

Em nossa casa os seus outros dois companheiros felinos bem como o seu amigo canideo estão mais carentes do que é normal.

Gostaria de o ter trazido para sua casa.
Para nossa casa.
Para colocá-lo no nosso, no dele, jardim, junto ao Limoeiro.
Onde sempre disse que todos eles ficariam, se por acaso iniciassem a viagem, desde cá de casa, para o Céu dos Amigos.

Ainda pedi à Veterinária para o trazer, mas... faltou-me a coragem.
Não a vontade, mas a coragem quando vi aquele saco azul onde no interior estava o seu corpo.

Ficou lá.
Hoje foi incinerado.
O seu corpo.
Ele não.
Ele partiu.
Espero que o alimentem bem, para onde foi.
Como ele gosta.

Doze anos de amor, amizade e brincadeira.
Adeus lindo amigo.
Adeus Gastão.
Estarás sempre aqui.
No coração.

Segunda-feira, Abril 23, 2007

Despedida

Quero a minha mãe.
Quero a minha mãe.

Chorava a criança convulsivamente enquanto batia com as mãos, os braços e as pernas no chão feito de mosaico frio.
Os avós não sabiam o que fazer.
O pai estava fora trabalhando.
A mãe estava hospitalizada fazia três meses e restava-lhe pouco tempo de vida. Uma coisa má a levaria deste mundo.
O garoto pouca contacto tinha com a mãe.
Ela tinha saído de casa ainda ele não tinha um ano de idade e seus avós é que eram sua mãe, seu pai, sua família.
O pai desiludido com o desgosto de amor dedicava-se doentiamente ao trabalho e quando não estava no emprego passava as horas nos cafés em jogos de snoocker.
- A mãe está doente no Hospital. O pai no fim de semana leva-te para a ver.
Mas a criança continuava. Olhos raiados de sangue, pele roxa de tanto gritar e chorar, parecia que lhe poderia dar algo a qualquer momento.
Passou assim uma hora completa.
Exausto e cansado acabou por adormecer ao colo de sua avó.
O telefone tocou.
Com passos calmos, conforme a sua personalidade, o avô dirigiu-se ao telefone. Atendeu.
Ouviu.
Agradeceu e desligou.
De semblante carregado fez sinal à avó que deitou a criança no sofá tapando-o com uma manta grossa e quentinha.
O garoto, meio acordado, observava-os.
Parecia que fazia uma análise fria da situação, observando-os com os seus grandes olhos castanhos.
A avó começou a chorar dizendo baixinho:
- Pobre menino. Pobre menino.
O garoto levantou a cabeça e disse:
- Avó.
Quero a minha mãe.

– silêncio –

- Avó. A mãe foi para o céu, não foi?
A avó ainda com olhos lacrimejantes, tentando disfarçar, perguntou:
- Porque dizes isso, querido?
- Eu sei.
Por isso quero a minha mãe.
Levantou-se um silêncio na casa apenas quebrado por um pequeno choro convulsivo da criança enquanto, entre dentes, dizia que queria a mãe.
Mãe essa que na verdade nunca esteve com ele como uma mãe está com a sua cria.
As horas passaram.
Finalmente chegou o seu progenitor.
Deram a notícia.
O olhar vidrado pelas lágrimas e as mãos crispadas diziam tudo.
Olhou para a criança, aproximou-se dela e disse baixinho.
- Dela, só te tenho a ti.
Afagando-lhe o rosto. Um triste sorriso na face. Uma lágrima correndo entre as covas de sua cara escondendo-se por detrás do colarinho de sua camisa.
- És tão parecido com ela, Meu Deus.
O menino, enxugando as lágrimas ao pai com sua pequena mão, respondeu-lhe.
- Não te preocupes, papá. A mamã está nos observando e não deixará que nada de mal aconteça.
Uma brisa passou, mesmo com as janelas encerradas, e os dois olharam para o vazio, abraçados, sentindo-se sós, mas ao mesmo tempo cheios de algo, de alguém. Cheios de Algo que não compreendiam.
Os avós, esses, deixaram-nos sós.
A despedirem-se.

Segunda-feira, Abril 09, 2007

O Desejado

- Meu filho, vinde a mim. Teu avô, carne da tua carne, sangue do teu sangue te chama. Filho do Sol e da Lua, chegou a hora de conheceres o significado das letras, a importância dos números.

“Com pequenos passos se aproximou do avô. Alto, austero, pele mais clara que os glaciares, olhos azuis metálicos, decisões e olhar firme, esticou a mão de dedos compridos e finos. Unhas bem tratadas, sorriu com seus lábios finos e rosáceos pegando na mão pequena e receosa do neto.
Aproximou-o e tirou de um saco de pele usado e gasto um livro enorme e grosso. Tinha uma capa, também de pele, e neles estavam gravados a ouro estranhas e misteriosas marcas quais runas celtas.”

- Aqui, frente a ti, tens o pilar da sabedoria: Aqui se apresenta perante ti, meu neto, carne da minha carne, sangue do meu sangue, o princípio de todo o conhecimento.
O sangue dos que nos antecederam.
O sangue daqueles que deram a vida para cresceres alimentando o teu cérebro com os conhecimentos ocultos que passaram de geração para geração, a princípio de boca a ouvido, depois séculos mais tarde, para não se perderem aqui foram escritas.
Sábias palavras que o vento não apagou, que o tempo não mudou.
A partir de hoje, tua vida mudará.
Terás de aprender o significado dos símbolos, a razão dos números, a força das palavras, para mais tarde, quando completares dezoito anos, receberes o legado que te deixarei.

“Tambores rufavam ecoando nos ouvidos da criança. Faziam tremer e vibrar as velhas paredes da casa de pedra onde se encontravam. Lá fora apenas existia o bosque de frondosos carvalhos que isolavam a casa de seu avô do resto da civilização, mas o som de algo invisível continuava a ecoar em seus ouvidos enquanto ouvia solenemente, mesmo sendo muito jovem, a altivez e sapiência de seu avô, guardião de um conhecimento há muito desconhecido para os vulgares mortais, afastados da terra e dos seus segredos milenares.
Enquanto o ouvia, silenciosas criaturas parecidas com pequenas labaredas voavam ao seu redor deixando um rasto cor de fogo e aroma de rosas no ar. Seu avô continuava falando, mas tomando um aspecto intrigado para com ele."

- Há muito, muito tempo, ainda se adorava os Deuses Antigos, houve um grupo de Homens, conhecidos pelos antigos povos da Península como os Luz-Citâneos. Esses homens pertencentes a uma brava e antiga nação da qual somos os seus descendentes, adoravam a Terra e suas divindades.
Conheciam a maneira de ver, falar e visitar seres que ninguém hoje em dia imagina que existem.
Decerto que já ouviste falar de fadas, elfos, centauros e outros. Criaturas mitológicas ligadas ao imaginário dos contos de fadas narrados às crianças como tu, nos dias de hoje.
Esses bravos homens, conhecedores da Sabedoria Antiga herdada de seus antepassados vindos das terras submersas pelo mar, mantiveram viva a tradição de se manterem em contacto e equilíbrio com essas forças da Terra.
De entre esses homens, havia um, bastante jovem, que sobressaia em relação aos restantes. Seu nome era Virgantu.
Nasceu com o Dom. Apenas poucos nasciam com o Dom.
Um dos poderes que o Dom lhe dava era a possibilidade de poder passar pelos mundos com bastante facilidade.
Enquanto os outros homens da sua espécie necessitavam de contactar com os Elementares em épocas precisas, Virgantu, apenas precisava de sorrir e abrir a sua mente àquilo que acreditava.
Abençoado desde que nasceu pelas Quatro Fadas Elementares, Rainhas da Natureza e dos Sete Mundos, cedo se apercebeu e cedo se aperceberam todos os que o rodeavam que ele era o Homem destinado a mudar o mundo físico.
Se os outros homens o deixassem, claro.
Mas como a inveja é dos pecados mais antigos do mundo, Virgantu, não chegou a envelhecer, acabando por desaparecer misteriosamente, mas deixando aos Luz-Citâneos as velhas fórmulas para a harmonia dos Sete Mundos.
Na verdade está escrito que Virgantu se retirou para a Terra das Quatro Fadas quando viu que, além dos Luz-Citâneos, os pobres mortais não eram dignos de conhecerem a felicidade e harmonia da Natureza, porque para além de não a compreenderem cedo a destruiriam.
Na verdade desistiu do seu desígnio, mas as Fadas Rainha perdoaram-no e acolheram-no no seu seio.
Contam os Antigos, que foi proclamado príncipe dos Sete Mundos tendo casado com a filha mais bela das Fadas Rainha, Iriana.
Nesse dia as portas entre mundos se abriram de par em par tendo existido amor e felicidade em todos os cantos da Natureza.
Belas canções bailavam pelos ares e os humanos viram coisas lindas e inimagináveis como nunca tinham sido vistas.
Belas demais para se descrever em letras ou palavras, mas, como sempre os pobres mortais fecharam-se em suas casas com receio do desconhecido.
Foi a última vez que os Portais da Natureza se revelaram aos olhos e mente dos pobres mortais.
A partir daí, apenas os Luz-Citâneos e seus descendentes ficaram portadores do conhecimento da existência desses mundos e desses seres frágeis e belos mas ao mesmo tempo fortes e ferozes para quem lhes quer mal.
Ficaram a partir desse dia a ser portadores do Livro das memórias aguardando a chegada Desejado.
O portador do Dom.
Até aos dias de hoje temos aguardado a sua vinda.
Mas hoje uma nova página se abrirá no Livro das Memórias e essa página terá um nome. O teu, meu neto.
Teu pai cedo deixou de acreditar na herança que lhe estava destinada e só vejo em ti, desde o dia que nasceste, o futuro guardião das Palavras Sagradas.
Aceitas, com força e nobreza esse fardo pesado que pretendo te colocar aos ombros?

- Sim, avô. Por me teres dado a conhecer o segredo e a força das palavras mágicas e dos números do conhecimento fizeste com que crescesse mais do que a minha tenra idade. Não sei se estou preparado mas tudo farei para ser um digno representante dos nobres Luz-Citâneos e tudo farei para manter viva a chama sagrada do conhecimento.

“O avô sorriu e abraçou-o ternamente.”

- Então chegou a hora. Teus pais não estavam de acordo, mas não tem coragem de negar o inegável quando sabem que é e sempre foi o teu destino desde que nasceste. Na verdade não serás apenas o futuro guardião das Palavras Sagradas, porque tu tens o Dom.

- Como sabeis que tenho o Dom, meu avô, se eu próprio não o sei?

- Ouves algo de estranho não ouves, meu rapaz? Música bela e melodiosa no ar? Vês algo não vês, meu rapaz? Bem te vejo a olhar em teu e meu redor como se algo nos sobrevoasse e rodeasse. Tenho estado a observar-te durante estes dias e não enganas.

- Mas avô. O que ouço são apenas tambores rufando na floresta e vejo estas pequenas luzes a subir e descer que nem loucas à nossa volta.

- Pois, neto desejado. Nada disso ouço. Nada disso vejo. Apenas o Escolhido tem o Dom de ver e ouvir os Elementares quando lhe apetece. Ou até quando não lhe apetece, porque a sua mente está aberta aos Sete Mundos.
Estamos esperando por ti há séculos. Contigo os Sete Mundos voltarão a ter esperança renovada de que o equilíbrio da Natureza voltará.
Teremos de te preparar para que estejas pronto para o teu Destino.
Fazer ver ao comum dos mortais que a Natureza e este planeta pertence aos Sete Mundos e não pode ser destruído. Deverá ser amado e protegido para que todos os seres vivam em paz e harmonia. Será uma tarefa hercúlea para a qual deverás ser bem treinado.
Se o nosso mundo continuar no caminho até agora tomado, os outros serão afectados e nada restará a não ser pó e cinzas.
Vinde. Caminhai a meu lado. O destino te aguarda lá fora.

“A porta se abriu e sairam juntos para a floresta.
Milhares de seres elementares esperavam a criança para a receber em seus braços.
Ali estava o Elo perdido, a criança esperada, desejada, para a salvação dos povos.
Seu avô reparava nos olhos brilhantes do neto que tomavam diversas cores e em sua face maravilhada.
Sorriu e sentiu-se animado por uma força enorme e maravilhosa.
Sentiu-se feliz como nunca o tinha sentido, mesmo sabendo que à sua frente apenas estavam os velhos, fortes e frondosos carvalhos que sempre conhecera em toda a sua vida. Por segundos sentiu uma ponta de inveja do seu neto por apenas ele poder ver algo de tão belo que nem ele, portador até àquele dia do Conhecimento Sagrado, pôde ver num segundo sequer da sua vida.
Mas logo se arrependeu do que sentira.
Uma lágrima se assomou nos seus olhos azuis, agora afectuosos.
Ainda não se tinha separado e já sentia saudades daquela criatura de tenra idade.
Largou sua mão e viu-o a ser levado pelo ar como um folha levada por uma brisa da manhã.
Seu neto ria e estava feliz como nunca, brincando com algo invisível.
Por breves instantes pareceu-lhe também ver pequenas criaturas voando, deixando no ar rastos cor de rosa primaveril.
Mas uma coisa tinha a certeza.
Aquele aroma no ar, a flores silvestres, não provinha dos carvalhos ao seu redor.
O neto olhou para o seu avô, sorriu, acenou com sua pequena mão, desejou-lhe um até breve com palavras silenciosas dirigidas directamente ao seu cérebro e desapareceu na Natureza.
Prostrado, chorando de felicidade, seu avô rezou um salmo à Natureza e soube que a partir daquele momento havia uma esperança de sobrevivência.
Tinha começado uma nova era.
A Era do Conhecimento.
Os Sete Mundos voltariam a unir-se.
A Harmonia estaria de volta em breve.
O Desejado tinha voltado.

Quinta-feira, Abril 05, 2007

Conto de Páscoa ou A história do Coelho e seu ajudante

Os anos passam e ele sempre adorou esse ritual.
Mãos na tinta. Pincéis a postos esperando que sua mãe acabe de cozinhar os ovos.
Seus olhinhos, no alto dos seus sete anos, brilham como chamas crepitando na lareira.
- Mãe, é verdade que conheceu o coelhinho da Páscoa?
Sua mãe, sorrindo discretamente, sussurrou, enquanto preparava os ovos.
- Sim, filho. Ele era muito pequeno. Como você. Na verdade... ele me faz lembrar você.
- Verdade, mãe? Porquê? Conta, vai.
- Ele era muito curioso e brincalhão, como tu, meu querido. Os seus pais também lhe davam ovos para pintar, o que adorava, para oferecer na Páscoa aos seus avós. Foi ele que me contou. Tudo começou com essa brincadeira. Ele foi crescendo e quis cada vez mais pintar ovos para oferecer a todas as crianças do mundo. Já não bastava oferecer aos seus familiares mais chegados. Chegou uma altura que tinha tantos ovos para pintar que necessitou de arranjar um ajudante.
- Verdade, mãe? Adorava ser ajudante do Coelho da Páscoa.
- Bem, filho. Aqui a sua mãe, chegou a sê-lo.
- Mãe!!! Que fantástico!!! Conta, vai, conta.
- O coelho morava aqui muito perto. Naquela casa velha de cor verde que há no cimo da rua, sabes? Antes de estar abandonada, morava lá com sua família.
Passava o ano todo a pintar ovos para distribuir pelas crianças. Um dia, ainda eu menina, caminhava pela estrada quando a porta da casa verde se abriu. Era ele que levava os ovos para colocar no seu carrinho de mão.
- Ele entregava os ovos num carrinho de mão?????
- Sim, querido. E quem o empurrava era a sua linda mulher coelha e seus belos filhos.
Mas nesse dia uma lufada de vento desequilibrou-o e os ovos caíram ao chão rebolando pela estrada abaixo. Como eu era uma jovem cheia de habilidade consegui apanhá-los todos de uma vez só. Ficou muito grato. Tão grato que me convidou para entrar na sua casa que tinha um delicioso aroma de chocolate quente no seu interior. Em cada canto o aroma era diferente. Chocolate de leite, branco, negro, com nozes, amêndoas, morangos e tanta coisa que só de sentir aqueles aromas senti-me contagiada por uma alegria e felicidade indescritível. E as paredes eram pintadas de cores vivas e alegres. Ofereceu-me uma chávena de leite quente com cacau e uns bolinhos deliciosos de cevada, que saboreei demoradamente. Enquanto os provava olhava para mim e sorria. Sorria muito.
Perguntei porque sorria tanto. Disse que nunca tinha visto uma menina como eu. Fazia lembrar um doce de chocolate de morango. O que me enrubesceu.
- Engraçado, mamã. Também dizes que sou teu filhote de aroma de chocolate com sabor a noz.
- Sim, querido. Bem, como te estava a contar ele perguntou-me se o queria ajudar naquele ano a pintar ovos de Páscoa. Eu não queria acreditar! Ser ajudante do Coelhinho da Páscoa. Os meus amigos iam adorar! Mas ele tinha uma condição. Nunca contar a ninguém o que ele estava a propor até ao dia da decisão final.
- Dia da decisão final, mamã?
- Sim, filho, já lá vou a essa parte. Ainda não chegou a hora.
É claro que aceitei. E durante esses anos todos, enquanto fui criança, quando acabava de estudar e fazia as minhas tarefas, dirigia-me para a velha casa verde e passava horas a ajudar o lindo Coelho da Páscoa.
- E porque deixaste de o ajudar, mãe?
- Bem, filho. Há sonhos e fantasias que nos acompanham sempre até sermos adultos. Mas depois crescemos, sentimo-nos velhos e acabados e já não sentimos forças para continuar. Mas prometi que o ajudaria a encontrar alguém para me substituir. Alguém que fosse tão bom como ele achava que eu era, ou ainda melhor. A partir daí, todos os anos na Páscoa, quando acordo tenho sempre muitos ovos de chocolate aos pés da minha cama. Sei que é ele que os coloca lá enquanto dormimos.
- Mamã, sempre pensei que fosses tu que os colocasses lá! Os que encontro aos pés da minha cama, também é o coelhinho da páscoa que os coloca enquanto dormimos?
- Sim, meu querido.
- E arranjaste alguém para ajudar o Coelhinho da Páscoa?
- Até hoje não, lindo. Até hoje. Tem de ser uma criança carinhosa, que ame os seus pais, que seja um bom aluno, responsável, mas ao mesmo tempo brincalhão, sorridente, amigo do seu amigo, mas, acima de tudo, tenha o aroma dos escolhidos do Coelho da Páscoa.
- O aroma dos escolhidos? Mamã, não compreendo!
- A sua pele tem de ter um aroma a chocolate quente.
- Mãe! Sempre disseste que a minha pele tinha o doce cheirinho de chocolate quente!
- Bobeiras que as mães dizem para se agarrarem aos filhotes queridos.
- Mas, mãe. Isso quer dizer que posso ser ajudante do Coelhinho?
- Não meu filho. Não quer dizer que podes ser.
- Que pena, mãe. Devia ser muito bom.
- Meu filho.
- Mãe?
- Quer dizer que... vais ser ajudante do Coelhinho da Páscoa. Se quiseres, claro. É essa a decisão final de que te falei há pouco.
- Mãe!!!!! Que bom. Claro que quero.
- Mas para isso tens de continuar a ser o filho bom que tens sido até agora. Responsável e equilibrado. Tens de continuar a estudar para mais tarde poderes ser um grande Homem, mesmo não sendo um homem grande.
- Sim, mãe. Prometo que tudo farei para que isso aconteça.
- Então, senta aqui comigo perto da janela e dá-me a mão.
- Sim, mãe.
- Vês como a lua está tão bela? Agora diz comigo “Querido Coelho de Páscoa. Teus lindos ovos coloridos com sabores bons e deliciosos, alegram todas as crianças por esse mundo fora. Sei que és trabalhador e bondoso. Deixa-me ser teu ajudante a partir de hoje. Prometo que vou ser bom com todos os seres da terra. Estudarei e serei um menino bom e feliz.”
Nada aconteceu.
- Mãe. Parece que o Coelhinho não me quer como ajudante.
- Silêncio, querido – Sussurrei. – Ele vem aí.
O luar entrou pela janela brilhando fortemente iluminando uma pequena cesta que estava junta à janela e que até agora tinha passado despercebida. Estava tapada por um pano bordado que se remexeu saltando de lá um Coelho. Um belo coelho cinzento de olhos e orelhas grandes vestido com roupas de verdes garridos.
- Olá, Sebastião. Um belo passarinho me disse por trás da orelha que querias ser meu ajudante.
A criança nem queria acreditar! Sempre era verdade. Existia o Coelho da Páscoa. E estava à sua frente, convidando-o para ser seu ajudante. Sua mãe sorria. Corria lá fora uma brisa fresca e o céu estava cheio de estrelas brilhantes.
- Sim, senhor Coelho da Páscoa. Adorava.
De mão dada com a sua mãe e com o Coelho da Páscoa, saíram caminhando num raio de luar enquanto a mamãe coelho e seus filhotes os esperavam na velha casa verde.
E assim mais um ano passou tendo todas as crianças do mundo explorado sabores, cores e odores dos lindos ovos de páscoa feitos e elaborados pelo Coelho de cores verdes garridas, pelo seu pequeno ajudante e sua mãe.

FELIZ PÁSCOA.

E sejam meninos e meninas lindos e bons para os papás. Quem sabe o Coelho da Páscoa não esteja procurando por um novo ajudante.

Quarta-feira, Abril 04, 2007

"Rais" parta as janelas

O seu olhar cruza-se com o meu entre os vidros foscos e sujos da janela.
Será que ele me vê?
Serei apenas mais uma cliente que passa na sua vida como uma folha de vidro nas suas mãos?
Não.
Não cometerei o erro de não tentar.
Terei que o conhecer melhor.
Na verdade... terei que o conhecer.
Tudo começou no dia que liguei a solicitar um orçamento.
Apenas queria uma janela com vidros duplos para o meu quarto.
Não queria a guerra do Vietname, nem o fim das batalhas neste mundo.
Mas com a visita combinada para acertar medidas e dar orçamento começou uma guerra maiores que as outras.
A guerra que se desenrola no meu cérebro.
Entrou na minha casa como uma lufada de ar fresco pisando a minha alma, o meu solo sagrado.
Meus olhos encantados que esperam a vinda do príncipe encantado brilharam como safiras no olhar de uma moura enfeitiçada.
Entregar-me-ia às trevas para poder sentir as suas mãos tocar na minha pele como o faz com os vidros das janelas no seu árduo trabalho.
Nos seus gestos vejo amor pelo que faz.
Pelo que produz.
Ou será que sou eu que imagino?
Tenho de aprender com os meus erros e apanhar coragem para lhe expressar os meus sentimentos.
Sempre fui uma sombra no trilho dos caminhos do amor e agora algo pode acontecer.
Acabou o seu trabalho, sorriu para mim e eu brilhei junto com o meu olhar.
Vejo, observo os seus lábios finos mas belos abrirem para me dizer algo.
Será que se vai declarar?
Vai gritar bem alto o seu amor por mim?
Amor à primeira vista?
Se for assim terei de me fazer difícil.
Estes homens são todos iguais.
Já me ausentei do trabalho duas vezes só para o ver trabalhar.
É hoje. É hoje.
Espero que seja gentil ao dar-me a provar o gosto e o toque da sua virilidade masculina.
- São 350 euros, minha xenhora.
!!!!!!!!!
- Sim, claro.
!!!!!!!!!
Balbucio no meu inglês afilhado de um qualquer Miterrand anglo-saxónico, puxando do livro de cheques espantada com a frase que lançou para o ar.
Nem um estás bela?
Nem um que belo vestido traz?
Eu que até fui cortar o cabelo e esticá-lo para o agradar.
Será que ele reparou na nódoa de profiterole do meu vestido?
Devia ter ido trocá-lo.
Ou não devia ter comido aqueles profiteroles antes de ele chegar.
Os nervos dão-me para isso.
Não resisto a Profiteroles com chocolate quente.
Talvez seja envergonhado.
Talvez tenha pudor em se declarar.
Entrego-lhe o valor combinado deixando um dedo meu tocar-lhe levemente na sua mão áspera e forte.
Ele sorri-me e diz-me:
- Bai ficar com uma janela para a bida, minha xenhora.

“Adoro aquele sotaque de Bizeu”

Quando vou dizer algo, ele vira-se, dá dois passos para a porta de saída e... se vai.
Apenas fica a imagem dele na minha mente.
O cheiro do vidro cortado no ar.
As limalhas de vidro no chão ao lado do meu coração.
Fico só, mais uma vez.
Eu e a minha janela nova.
Até que não é feia.
Hummmmmm.

Trrriiiimmmmmm

Cinco da manhã. Acordo com o maldito despertador.
Viro-me para o lado, olho fixamente para ele e...
“Chiça, estás cá.
Não foi sonho.
Maldita a hora que tive coragem de abrir a porta e ir atrás de ti.
Só ontem, é que reparei que me enganaste e vendeste-me janelas com vidros float simples ao preço de vidros duplos com stop-sol.
Devia estar bêbeda.
Mas, onde raio é que coloquei as meias?"

Sábado, Março 31, 2007

O Astro Maior ilumina todos (Uns mais do que outros, claro)

A Criança nasceu como Jesus veio à terra.
Desnuda,limpa de pecados e preconceitos.
Alma pura em corpo errante decidida a viver para o amor. Para o próximo.
Sempre muito metódico, silencioso, atento a tudo o que o rodeava.
Pingente de gente que ainda não o era.
Os pais resolveram dedicá-lo à causa religiosa da sociedade inerente.
Antes de fazer um ano iria receber a água casta e limpa na sua fronte.
Mas a maré negra levou a sua bisavó materna.
Por causa do infausto acontecimento resolveram desmarcar a importante cerimónia e assim ficou a criança. Como tinha vindo ao mundo.
Sua alma vagabunda em pingente de gente ficou no limbo mesmo sendo uma alma desnuda e limpa de pecados e preconceitos.
O tempo passou e seus pais não esqueceram os seus deveres para com a religião e uma vez mais marcaram o importante acto iniciático.
Para os olhos da sociedade ele passaria a pertencer a ela como um deles.
Um pequeno passo para uma grande causa.
Ser aceite.
Mas uma vez mais não foi possível.
A sociedade com as sua contradições obrigou a adiar o importante passo.
Seu pai teve de ir prestar serviço militar.
Tempo de guerra assim o obrigava.
E novamente sua alma vagabunda em pingente de gente ficou entregue ao pecado e devassidão da mente humana.
Nao se deve deixar uma criança sem a iniciação; diziam.
Faz-lhe mal à alma. Marca-o para a vida; cuspiam.
De soslaio olhavam sua mãe, vomitando impropérios; escarravam.
Três anos se passaram.
O pai voltou de uma guerra suja, negra como o carvão, sem razão, sem nexo. No fundo como todas o são.
Abriu-se garrafas carregadas de festividade. Trocaram-se beijos, enrolaram-se abraços e uma vez mais o pingente de gente ficou com o destino próximo marcado. Seria desta que teria a sua iniciação.
Tão bonito e bem feitinho; babavam.
Já era tempo de o terem iniciado; aconselhavam.
Vai ser desta; grasnavam.
Corvos de mau agoiro.
A sua mãe adoeceu. Gravemente.
Talvez não seja nada; sussurravam.
Más vidas é o que dá; envenenavam.
E sua alma ia vagueando no limbo dos não iniciados.
O que viria a ser dele?; cagavam.
Gente sem princípios; vomitavam.
Com esforço e dedicação ao filho pingente de gente resolveram marcar a iniciação. A mãe tinha de compreender que a sociedade estava acima da doença.
O dia chegava cavalgando a rédeas soltas quando o impensável aconteceu.
Sua mãe morreu deixando o menino pingente de gente sem possibilidade de uma vez mais se inserir na sociedade aglutinadora.
Pobre mulher. Podia ter aguentado um pouco mais; Alucinavam.
Já sabia. Tinha de dar nisto; Escaravelhavam.
Quem nasce torto...; Extasiavam.
A cerimónia foi privada, chuvosa, com corpos vestidos de negro, três punhados de terra.
Cheiro de terra revolta, molhada, forte, carregada na alma.
Seu pai, triste e amargurado, decidiu.
Quando o miudo crescer, há-de baptizar-se se quiser.
Não se fala mais nisso.
Foi para casa, deitou-o, deitou-se virou-se para o lado e adormeceu.

Sexta-feira, Março 30, 2007

Gosto do que gosto de que gosto deste gosto gostoso que gosto.

Gosto da vida e de sabores no ar
Gosto de sentir a chuva sobre mim
Olhos fechados
mãos ao céu
sorriso escorrido, molhado, gotejando

Gosto do sabor da maresia no céu da boca
Lamber os lábios quando com sabor a sal do mar

Gosto da segurança do interior do Lar
E da liberdade do lado de fora para disfrutar

Gosto de Amar
De ser Amado
Gosto de ser Amigo
De ter Amigos

De me sentir útil

Da Aventura
Da Adrenalina
Gosto de estar em lugares altos
Só por saber que sofro de vertigens

Gosto de beijar o meu filho ao fim de um dia.

Gosto de sorrir.

Gosto que os meus dias contem
E não de os contar.


Gosto de aqui estar.

Voltei

Quinta-feira, Dezembro 07, 2006

Encontros

"...De dia, depois das aulas tenho de estudar.
Depois de jantar, posso ver um pouco de televisão e necessito de ir dormir, porque amanhã, tenho aulas novamente.
Sou uma criança de 13 anos.
Um jovem como tantos outros.
Que brinca, sorri, estuda, ama e está apaixonado pela menina que vive ao lado da mercearia.

Quando crescermos fugirei dela por causa dos seus olhos tortos.
Pobre menina, paixão de infância.

Sou uma criança normal como milhares.
Vivo com meus avós.
Sempre foram como pais para mim.
Minha mãe morreu, tinha eu três anos.
Apenas me lembro de a visitar no Hospital, uma semana antes do infausto acontecimento e aquela senhora bela, de cabelos castanhos compridos, chegar ao terraço do hospital e sorrir para mim.
O meu pai carregava-me ao colo.
Ela pediu para sentir o meu peso.
Perguntou se sabia quem ela era.
Disse que sim.

Era a minha mãe.

Sorriu.
Feliz.
Talvez a última vez.
E deu-me um chocolate.
Uma sombrinha de chocolate com uma prata cor de paixão, cor de fogo, cor de sangue.
Uma sombrinha de chocolate com uma prata vermelha.

O tempo passou.
As imagens não se desvaneceram.

Deveria estar a dormir.
Mas não.
Estou a ler um "Tio Patinhas" na cama.
Será que o avô vai aparecer e repreender-me?
Acabo de ler.
Apago a luz.
Subitamente levo um estalo na almofada.
- Sim, avô. Já vou dormir. Desculpa por ser tarde.
Silêncio.
Acendo a luz.
Nada.
Ninguém.
Chamo.
-Avô!!!
Ouço o ressonar de ambos os meus avós no quarto ao lado.
Assustado, torno a apagar a luz.
Mais uma vez, levo um estalo na almofada.
Desta vez com mais violência.
Tapo-me todo.
Pânico.
Não me movo.
Silêncio.

Custou a vir o sono.
Custou a desaparecer o medo.
Mas passou e acordei no dia seguinte.
Contei o sucedido.
Recebi uma prenda.
Um crucifixo de Ouro.
Que passou a andar comigo junto ao peito..."