Joaninha vivia num mundo de ilusões que apenas a ela pertencia.
Seus cabelos negros, cor de azeviche, tapavam a face sorridente que tinha todas as manhãs quando acordava com desejo de brincar.
Era feliz por seus pais serem tão seus amigos.
No dia anterior tinha ganho a boneca dos seus sonhos.
Pele branca cor de cera, olhos castanhos penetrantes, grandes pestanas e cabelos negros cor de azeviche.
Como ela.
Parecia uma outra Joaninha, tão idênticas eram.
Seu pai a tinha encontrado numa loja de antiquário.
Lembrou-lhe logo sua querida filha.
Pagou caro, mas não se importou.
Ele sabia que faria a menina feliz.
Olhou para a vitrine e viu-a.
Estava dentro de uma caixa de madeira com um vidro servindo de protecção.
O Antiquário disse que a boneca era muito antiga, mas sempre tinha sido estimada pelos seus antigos donos.
Quem quer que eles fossem.
Mas o que o mais intrigava é que a boneca era bastante idêntica à sua querida filha.
Tão parecida que até tinha um pequeno sinal na bochecha esquerda como Joaninha.
Acordou feliz e olhou para os pés da sua cama.
Lá estava ela.
Sentada como de uma menina se tratasse, olhando directamente para ela.
Tão directamente que a felicidade de Joaninha se desvaneceu num arrepio estranho de medo e temor.
A boneca parecia tão real.
Abanou a cabeça e sorriu.
Estava a imaginar besteiras.
Levantou-se, agarrou a boneca e beijou-a carinhosamente.
Em pouco tempo deixou de brincar com seu amigos e passou a estar todo o tempo com a boneca.
Ia para a escola e levava-a consigo.
Dormia com ela.
Tomava banho com ela.
Sua mãe começou a achar aquilo muito estranho.
Tentou falar com ela mas a menina só queria a boneca.
Os pais preocupados levaram-na ao médico.
Primeiro a um psiquiatra, mas após as primeiras consultas o médico achou que a criança era absolutamente sã.
Apenas sofria de solidão.
Mas essa solidão foi ela que a criou.
Desde que o pai trouxe aquela estranha e misteriosa boneca.
O que teria aquela boneca de tão hipnótico para que a filha dos seus olhos se tivesse transformado numa criança fechada em si, obscura, e enigmática?
Preocupado ligou para o antiquário e pediu que fizesse uma busca para saber a quem tinha pertencido a boneca.
Os dias passaram.
Joaninha mantinha o seu estranho comportamento.
Como os pais gostariam de estar dentro da sua mente para saber o que por lá se passava.
A casa onde antes era tudo alegria e felicidade tornou-se em pouco tempo um local triste e silencioso sem a voz e o riso de Joaninha.
Os pais tentavam de tudo.
Levaram-na a ver belos lugares, fizeram grandes passeios pela praia e pelo campo, foram ver peças de teatro para crianças, até a mudaram de escola para ver se com novos amigos voltaria a ser o que era.
Entretanto, não deixaram de contactar diversos especialistas médicos em várias áreas para tentarem saber o que Joaninha tinha.
Preocupado e com o pensamento em turbilhão à velocidade de um cometa negro, resolveu fazer o que já deveria ter sido feito há muito tempo.
Retiraria a Joaninha o seu alter-ego, a sua mais que tudo, a sua confidente, sua amiga mais preciosa... e única.
Retirar-lhe-ia a boneca de olhos negros, cabelos cor de azeviche e pele de cera que tanto o fascinou, também a ele, desde que a viu naquela lúgubre loja de antiguidades.
Doce pesadelo que trouxe directamente para casa.
Abriu-lhe a porta e ela entrou devastando-lhe o seu doce lar, ficando com um sabor amargo a desespero enquanto via sua filha a ser engolida literalmente para um poço sem retorno.
Carrasco de suas próprias ilusões via desvanecer-se à sua frente todos os sonhos que teve em relação a Joaninha.
A mãe de Joaninha não o criticava nem censurava por ter trazido a boneca para casa, mas tornou-se silenciosa e distante como querendo dizer sem palavras que a culpa tinha um nome.
Na própria casa parecia que viviam em mundos paralelos, silenciosos e tolerantes.
Quando chegavam a casa fazia o jantar e ele ajudava-a no que necessitava, mas sem uma palavra, sem um carinho, sempre distante, ausente, como se ele já não existisse.
Chegou o inverno
Nada mudara.
A chuva batia lá fora, cristalizando de encontro aos vidros das janelas.
Chegara a hora.
Subiu as escadas e encarou de frente a porta do quarto de sua filha.
Bateu.
Ninguém respondeu.
Silencio total.
Abriu a porta e viu Joaninha com os olhos vítreos cravados em si.
Aquele olhar fez com que se sentisse cansado e velho.
A coragem por um momento desvaneceu e sentiu-se ir abaixo.
Por momentos sentiu-se febril e assaltado por tremores nervosos.
Arrepiou-se como se um vento frio e cortante tivesse entrado no seu corpo.
Recordou naqueles breves instantes as mortes de seus pais.
Mortes trágicas numa noite de inverno como aquela.
Vinham a conduzir quando um pequeno animal se atravessou à frente da viatura.
O pai para não atropelar a pobre criatura desviou-se da sua faixa indo de encontro a um camião que vinha na direcção contrária em alta velocidade.
Pelo menos foi assim que um transeunte testemunhou o que viu.
O pobre do camionista não pôde fazer nada.
Sua sorte foi que nesse dia estava com seus avós.
Os pais tinham ido ver uma peça de teatro.
De repente acordou para a dura realidade que tinha na sua frente.
Voltando-lhe a coragem, decidido, avançou na direcção de Joaninha e sua boneca.
Parece que foi ontem.
Quando encontrou naquela vitrine a boneca de pele de cera, nunca pensou que isso seria o início de uma grande alteração nas suas vidas.
Em pouco tempo viu a vida a desmoronar pelos alicerces.
O amor que transbordava no copo acabou por entornar completamente.
Perdeu-a.
Perdeu as duas.
É triste e ingrato estas coisas.
Estátua cinzenta e sem vida, corpo a definhar, estrela reluzente, cadente, decadente.
Sua filha.
Sua única filha.
Fruto de um amor louco e insano.
Assim o pensou.
O amor leva-o o vento com as folhas de Outono.
O que gostaria que ela fosse, o que gostaria que ela tivesse, o que ela quisesse, nada disso iria acontecer.
Separou-as.
Não podia aceitar mais aquilo.
Arrancou a boneca de suas mãos e desmembrou-a com a maior violência que poderia demonstrar.
Um urro ecoou alto, vibrante, aterrorizante, assustador, potente, de sua garganta.
Sem forças, quase desfalecendo, pela força de suas entranhas, olheou para a filha que o mirava com olhos de louca, insana, doentia, estranha.
Recuou.
Isto sem largar aquele objecto demoníaco.
Saiu pela porta fora indo esconder o fruto do desejo longe da vista e da alma da criança perdida.
Perdeu-a.
Um dia que desejaria que não tivesse acontecido.
Nessa mesma hora, nesse preciso minuto, o telefone tocou.
Estridente, gritante, assustador, penetrante.
Chamada directa do mais negro do ser.
Inferno psicológico.
Chamas eternas de desgosto e solidão.
Do outro lado uma voz ressoou firme e decidida.
- Sr. Mendonça? Tenho os resultados do Check-up da sua filha.
Se pudesse passar por cá logo pela manhã. Deveríamos falar pessoalmente. Ao telefone não é conveniente.
Concordou.
A sua linda tinha um mal que a consumia por dentro.
Estava a consumi-la, a devorá-la, a definhá-la.
Sabia-lo. Desde que ela se refugiou dentro de si.
A medicina não sabia bem o que era e aconselhou-os a visitar algo menos, digamos, recorrente.
E com isto ela estava a ir para longe deles.
Para junto de Deus.
E seus pais?
Eles que eram seus pais, que a colocaram no mundo, que a amaram ainda ela não tinha nascido, que a trataram sempre com carinho, com amor, com ardor, paixão, loucura, emoção, a luz dos seus olhos, o toque de criança entranhado no ser, eles, os pais, não teriam direito de escolha? Teriam de ficar sem ela, porque Deus a escolheu?
Mas seria mesmo Deus que a chamava?
Ou algo também muito forte, poderoso, assustador?
Há mistérios que a alma humana ainda não sabe, não reconhece, não aceita.
E receia.
Como tudo o que cheira a desconhecido.
Amargo, muito amargo. O fim de uma vida. De uma vivência.
Deambulando pela rua sem destino definido ouviu uma voz o chamando...
- Mendonça, Mendonça, acorde, menino Mendonça.
Como é que ele vai, Enfermeira Antunes?
- Senhor Doutor, continua a delirar.
- Pobre jovem. Desde que sofreu o acidente a semana passada ainda não recuperou os sentidos e continua a ter pesadelos.
- É verdade. Acidente horrível. Pobre criança que ficou sem os pais.
- Pois é. É um milagre, se os houvesse, ele ter sobrevivido.
- Dá pena, Doutor. Tão Jovem. Quinze aninhos mal feitos.
- Quem será essa Joaninha que ele tanto chama enquanto delira?
- Se não recuperar, nunca o saberemos Doutor.
Nunca o saberemos.
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